“Embarcações”, de Luís Serguilha, toma
o curso dos registros incomuns de uma
silabaria nômade. Não se fará mais a palavra
dizer, e sim seguir a direção contrária do
comunicar: do estereotipar imagens, do
encadear frases, do descrever lugares e
personagens, do relatar ou contar uma história.
Doravante a língua se movimentará por rotações de
motores que relincham. Interstício entre devir-máquina e
devir-animal. E esse vínculo surge – na poesia de Serguilha
– pelo estertor de confidências não desveladas. Um vínculo
muito mais ótico do que sonoro, uma vez que se segreda e se
protege das articulações sintáticas. Se não for para ser visto
o texto desmorona. Serguilha não é poeta do verso nem da
música; ele monta a cena do poema e o torna um objeto
ótico que atinge o corpo com os lampejos de imagens
embriagadas e tortuosas – manipuladas com os dois braços
esquerdos para efervescer a carne. Desse modo, no prefácio
de E. M. de Melo e Castro, essa poesia é apontada como
“predominantemente erótica e amorosa”. Mas ela não se
demonstra assim. Um teorema de crueldade e sedução se
vai desenvolvendo em seqüências que se envolvem e se
repelem, expondo-nos a um problema visual talvez sem
precedentes na literatura: assim termo a termo se refletem,
rivalizando-se “merendas pubianas”, “tiquetaques
selvagens dos óvulos”, “refresco irrecuperável dos seios”,
“chicotadas planetárias das ancas felizes” ...
Ney Ferraz Paiva